Hoje não quero escrever poesia. Poesia é legal e coisa e tal, mas amarra um pouco a gente. Tem que pensar antes de escrever, fazer conta, procurar a palavra certa, colocá-la no lugar exato, uma chatice às vezes. E falar sobre quem eu quero, é justamente a antítese dessa amarração:
…pois a nossa comunicação é sui generis. Têm coisas que eu falo que só ela entende. A minha graça é mais engraçada quando é com ela que estou brincando. Ela solta umas gargalhadas que me sinto o próprio Seinfeld no palco. Tem coisas que eu faço que não preciso nem contar, porque ela já sabia. Têm outras que eu penso que estão só na minha cabeça e quando vejo, ela já viu. Não há segredos nem assuntos proibidos. Não há pudores, vergonhas nem nada que o valha. Sua companhia é sempre agradável, mesmo quando uma de nós está de mau humor ou cabisbaixa, ou irritada. Se isso acontece, das duas uma: ou perguntamos, quer falar? ou simplesmente esperamos passar. Nem eu me preocupo de não estar legal, nem me incomoda se ela não está. Se as duas estiverem bem, a conversa não parece ter fim. Pode ser no carro, em casa, no restaurante ou no trabalho, a verdade é que quando a gente se encontra um mundo à parte nos envolve como numa bolha e dali não queremos sair. Temos tudo o que precisamos: ouvidos atentos, interesse mútuo, interesses compartilhados, ombros amigos, e piadas internas que ao invés de irem minando, só fazem se multiplicar.
É muito louca essa coisa de primos-irmãos. Primos são irmãos de pais comuns, os avós. A gente não fala, a mamãe nunseiquelá, o papai numseiquejeito, mas a gente fala, a vovó fazia assim, o vovô era assado, o tio fulano nunseioque. Não dizemos, lembra na casa da mamãe? , mas sim, lembra na casa da vovó? Nossas histórias pessoais nasceram na mesma fonte, são baseadas na mesma base, somos frutos do mesmo amor e unidas pelo afeto, fraternidade e amizade que sempre assistimos de camarote entre minha mãe e o pai dela.
Há algo muito curioso, porém, na nossa história de primas: sou 5 anos mais velha que ela, porém quando éramos crianças, eu era 10 anos mais velha! Isso porque eu era super problemática e achava que era adulta aos 8, mais ou menos. Coisa de neta mais velha, super paparicada e outros porens da minha própria história. Outro dia achamos uma carta que eu escrevi para a Nonna quando ela estava por um tempo fora do país. Eu dizia assim: oi vó, como estão as coisas aí? Por aqui está tudo bem, a Adriana está uma graça, linda como sempre! Hahaha! Veja bem que eu devia ter uns 7 ou 8 anos, recém alfabetizada, mas achava de conversar feito gente grande. O pior é que o pessoal mais velho devia achar bacana, porque jamais me deram um pito, deixa de ser tonta menina, vai brincar! O pito veio mais de 20 anos depois, quando nós duas, as primas, conversávamos sobre o porquê de termos demorado tanto para nos aproximar. Para a minha surpresa, fiquei sabendo, que aos olhos dela, eu era uma menina metidinha a besta, meio exibida e inacessível. Senti uma leve dor no peito e tive vontade de chorar, ao imaginar que eu podia ter causado algum tipo de dor na prima. Que eu pudesse tê-la feito se sentir pouco importante, pouco interessante. Quis rebater, perguntei se ela jurava que eu era assim e ela jurou. E eu chorei. Expliquei-me e me desculpei. Ela ouviu e compreendeu. A honestidade da conversa nos tornou íntimas.
Mas voltando à nossa história, passado o limbo que durou muitos anos, começamos a nos aproximar na casa da vó, mais ou menos no meio da década passada. A Nonna dava aulas de inglês e francês. Eu e a prima fazíamos francês com ela em horários separados, porém no mesmo dia. Entre uma aula e outra começou a rolar um almoço feito pela Nonna, que depois de um tempo acolhia não apenas nós duas, mas também nossos pais, o tio e às vezes um convidado de algum de nós. À mesa, a gente se sentava perto e aos poucos fomos nos conhecendo melhor, conversando mais, percebendo que tínhamos um senso de humor parecido, além da profissão comum. Eu comecei a me oferecer enfática e genuinamente para auxiliá-la no início da jornada de ter um consultório. Ela foi, devagarzinho, aceitando, e quando menos esperávamos, havíamos nos tornado irmãs-primas, muito mais do que primas-irmãs. Perfeito para as duas, já que ambas têm apenas irmãos! Ai que delícia é ter uma irmã! Eu que sempre achei que não sentia falta de uma! Mas é que a gente não sabe que sente falta, se nunca teve…
Daqui um mês aproximadamente, a prima vai se mudar para o outro lado do mundo. Eu sei profundamente o que isso significa para ela. Tanto, que arrisco dizer que sei mais sobre o sentido dessa mudança para ela do que ela mesma. (Continuo um pouco metidinha, coisa de irmã mais velha!) Assim sendo, fiquei muito, mas muito feliz que ela tenha tomado essa decisão. Como irmã, só posso querer o melhor para ela e isso implica em ter que me virar com a falta que ela fará na minha vida. É tão louco, passamos tanto tempo na mesma cidade, na mesma família e estávamos tão distantes, e agora que estamos tão próximas, teremos que nos separar de corpo. Num adianta muito dizer que tem skype, facebook, email, o escambáu, porque é verdade que essas coisas ajudam, mas simplesmente não substituem um encontro com a qualidade que tem o nosso.
A verdade Drics, e só estou percebendo isso agora enquanto choro sua despedida, que tenho com você algo muito parecido com o que tinha com a vovó. Se você pegar aquela carta que escrevi pra ela depois que ela morreu – carta pra lembrar de perto – verá que as coisas que descrevo sobre a relação que eu tinha com ela, cabem perfeitamente para a nossa também! Que incrível!
Amanhã iremos enrolar charuto de folha de uva na casa da vó, onde ainda mora o tio. Estaremos eu, a prima, minha mãe, o pai dela, o tio e sem dúvida, Nonnina. Assim, mantemos a presença dela no natal, alimentando a família extensa, e nos alimentando, com o que ela nos ensinou. Que bom que deu tempo de eu te ensinar alguns pratos, pra você me levar junto com você para sua nova vida! Eu, do meu lado, terei que fazer um curso de mergulho. Mas isso fica para o próximo post, que já está no forno.
Te amo e espero que a gente se encontre pelo mundo para cozinhar e mergulhar, para compartilhar nossos escritos e sentimentos, nossos pensamentos e experiências e para continuarmos a fazer história!
Um beijo com todo meu amor, sua irmã-prima.
